{"id":882,"date":"2022-04-03T22:30:45","date_gmt":"2022-04-03T20:30:45","guid":{"rendered":"https:\/\/fatima.robertschad.eu\/textos\/o-dificil-e-dar-expressao-a-simplicidade\/"},"modified":"2023-06-19T18:29:18","modified_gmt":"2023-06-19T16:29:18","slug":"o-dificil-e-dar-expressao-a-simplicidade","status":"publish","type":"page","link":"https:\/\/fatima.robertschad.eu\/pt-pt\/textos\/o-dificil-e-dar-expressao-a-simplicidade\/","title":{"rendered":"O dif\u00edcil \u00e9 dar express\u00e3o \u00e0 simplicidade"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row unlock_row_content=&#8221;yes&#8221; row_height_percent=&#8221;100&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; equal_height=&#8221;yes&#8221; gutter_size=&#8221;3&#8243; column_width_percent=&#8221;100&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;151996&#8243;][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;3&#8243; back_image=&#8221;89&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/2&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;756026&#8243; el_class=&#8221;opener-image&#8221; mobile_height=&#8221;450&#8243;][\/vc_column][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; position_vertical=&#8221;middle&#8221; gutter_size=&#8221;3&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/2&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;172888&#8243;][vc_custom_heading uncode_shortcode_id=&#8221;104348&#8243; subheading=&#8221;Conversa entre August Heuser e Robert Schad em 27 de fevereiro de 2008 na Igreja de Santo Est\u00eav\u00e3o em Karlsruhe&#8221;]O dif\u00edcil \u00e9 dar express\u00e3o \u00e0 simplicidade.[\/vc_custom_heading][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/1&#8243;][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;190981&#8243;]<strong>Senhor Schad, a primeira pergunta que me fiz, quando me preocupei com o seu Crucifixo de F\u00e1tima foi: Como \u00e9 que Robert Schad veio parar a F\u00e1tima?<br \/>\n<\/strong>Boa pergunta! Normalmente vai-se a F\u00e1tima como peregrino. No meu caso havia outras raz\u00f5es: eu venho de uma fam\u00edlia cat\u00f3lica em que as descri\u00e7\u00f5es sobre as apari\u00e7\u00f5es de Maria, em F\u00e1tima e em Lourdes, nos impressionavam bastante, enquanto crian\u00e7as, porque Maria apareceu \u00e0s crian\u00e7as e n\u00e3o aos adultos. Viajei para F\u00e1tima, pela primeira vez, nos finais dos anos 70, no \u00e2mbito de uma actividade como guia tur\u00edstico, com a qual financiei a minha licenciatura. No in\u00edcio dos anos 80 fui estudar para a Escola Superior do Porto. Apaixonei-me de imediato pela cidade e pelo Norte de Portugal, mas F\u00e1tima ainda n\u00e3o era para mim um ponto de interesse. Um pouco mais tarde comprei um moinho de \u00e1gua, que depois restaurei para l\u00e1 morar, com a modesta quantia que recebi de um pr\u00e9mio art\u00edstico, em Vila Nova de Cerveira. Desde ent\u00e3o passamos regularmente algumas semanas por ano no Norte de Portugal. Mas isto n\u00e3o levou por\u00e9m a que eu fosse inserido no c\u00edrculo de artistas que iriam receber a tarefa de se ocuparem com a Nova Igreja de F\u00e1tima. O arquitecto grego Alexandros Tombazis \u00e9 que me perguntou h\u00e1 cerca de tr\u00eas anos, se eu queria dar o meu contributo art\u00edstico, no \u00e2mbito do seu novo projecto de constru\u00e7\u00e3o da Igreja da \u201cSant\u00edssima Trindade\u201c, em F\u00e1tima. Ele j\u00e1 tinha visto o meu trabalho, numa exposi\u00e7\u00e3o em Paris.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row unlock_row_content=&#8221;yes&#8221; row_height_percent=&#8221;0&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; gutter_size=&#8221;3&#8243; column_width_percent=&#8221;100&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;189384&#8243;][vc_column width=&#8221;1\/1&#8243;][vc_gallery el_id=&#8221;gallery-131572&#8243; medias=&#8221;78,79,80,81,82,93,92,91,90,89,88,87,86,99,85,84,83,94,95,96,98,100&#8243; gutter_size=&#8221;1&#8243; screen_lg=&#8221;1000&#8243; screen_md=&#8221;600&#8243; screen_sm=&#8221;480&#8243; single_width=&#8221;3&#8243; single_overlay_opacity=&#8221;50&#8243; single_padding=&#8221;2&#8243; single_border=&#8221;yes&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;119164&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/1&#8243;][vc_column_text uncode_shortcode_id=&#8221;323975&#8243;]<strong>Ent\u00e3o a\u00ed quase que se desenha uma cruz europeia, entre Ravensburg, a sua cidade natal na Alemanha, F\u00e1tima e Paris\u2026<br \/>\n<\/strong>\u2026e Atenas, a cidade de proveni\u00eancia do Alexandros Tombazis. Ele empenhou-se bastante na realiza\u00e7\u00e3o dos contributos art\u00edsticos: efectivamente, o novo centro de peregrina\u00e7\u00e3o em F\u00e1tima tamb\u00e9m emite, do ponto de vista est\u00e9tico, uma reflex\u00e3o que se dispersa largamente por Portugal, tendo reunido muitos criadores art\u00edsticos de toda a Europa: o arquitecto grego e o seu colega portugu\u00eas \u00c1lvaro Siza-Vieira, que pintou um painel de azulejos com mais de 20 metros de largura, com destino ao piso inferior da Igreja; O pintor Pedro Calapez, de Lisboa, que criou o port\u00e3o principal da Igreja, Joe Kelly do Canad\u00e1, as vidra\u00e7as da entrada, Ivan Rupnik da Eslov\u00e9nia e Catherine Green da Irlanda, a sala do coro, Czeslaw Dzwigaj da Pol\u00f3nia e por fim, Benedetto Pietrogrande de It\u00e1lia, criaram esculturas individuais monumentais. O meu crucifixo \u00e9 por isso parte integrante de um conceito est\u00e9tico internacional. Mas em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 religiosidade, existe alguma coisa que o mantenha ligado a F\u00e1tima? At\u00e9 que ponto lhe interessa a religiosidade e a cren\u00e7a das pessoas em F\u00e1tima? F\u00e1tima \u00e9 um lugar de peregrina\u00e7\u00e3o muito visitado por 43 lavradores e art\u00edfices portugueses. A sua religi\u00e3o viva n\u00e3o tem nada a ver com um car\u00e1cter elitista de um lugar de peregrina\u00e7\u00e3o. F\u00e1tima \u00e9 a capital da sua identidade religiosa e cultural, onde as pessoas se sentem bem acolhidas e como que em casa. E isto sentiu-se tamb\u00e9m na noite de inaugura\u00e7\u00e3o da Nova Igreja, a 13 de Outubro de 2007: Milhares de pessoas passaram a noite na pra\u00e7a, onde festejaram, cantaram, comeram e dormiram, e n\u00f3s est\u00e1vamos no meio deles. Parecia uma enorme festa popular.<\/p>\n<p><strong>Quer dizer que a sua cruz tamb\u00e9m foi, ou \u00e9, destinada precisamente a estas pessoas?<br \/>\n<\/strong>Evidentemente. Com toda a certeza que criei esta cruz para estas pessoas, mas n\u00e3o foi s\u00f3 para os portugueses. Era suposto criar um s\u00edmbolo que, na sua forma, fosse o mais simples poss\u00edvel, conseguisse atingir valores interculturais e n\u00e3o se perdesse em detalhes realistas. O mais dif\u00edcil era dar express\u00e3o \u00e0 simplicidade. \u00c9 especialmente dif\u00edcil realizar uma tarefa, onde haja uma \u00fanica interpreta\u00e7\u00e3o poss\u00edvel, com t\u00e3o grandes dimens\u00f5es, isto referindo-se tamb\u00e9m ao contexto arquitect\u00f3nico e espacial. Considerei a tarefa como se se tratasse, por um lado, de um jogo art\u00edstico com o local e, por outro, um profundo di\u00e1logo com o arquitecto.<\/p>\n<p><strong>O seu crucifixo est\u00e1 colocado ao lado da enorme Nova Igreja de F\u00e1tima, existindo um confronto entre o ferro e a pedra, o horizontal e o vertical, a linha e o espa\u00e7o. Como \u00e9 que lidou com este espa\u00e7o, tendo em conta a arquitectura existente?<br \/>\n<\/strong>Apesar da sua simplicidade e do ascetismo, a arquitectura tem caracter\u00edsticas que tamb\u00e9m identificam as formas da cruz. Entre outros aspectos, o que \u00e9 interessante nesta arquitectura, \u00e9 o modo como as pessoas s\u00e3o conduzidas para o interior da Igreja. Um enorme par de vigas em arco guia-nos do port\u00e3o principal que d\u00e1 acesso directo \u00e0 entrada do \u00e1trio aberto e iluminado da Igreja que alberga quase 10 000 crentes. N\u00e3o h\u00e1 nada que recorde o antigo car\u00e1cter ib\u00e9rico de espa\u00e7o escuro dos interiores de igreja, com a sua m\u00edstica incid\u00eancia de luz. Em vez disso, temos um espa\u00e7o invulgarmente claro, quase metaf\u00edsico, que em vez das ora\u00e7\u00f5es de penit\u00eancia, convida isso sim \u00e0 medita\u00e7\u00e3o sobre o segredo de F\u00e1tima. A vista axial e apertada para o altar, a partir da entrada, vaise desdobrando at\u00e9 se diluir, \u00e0 medida que se vai entrando na Igreja. O aspecto fechado e compacto do corpo do edif\u00edcio (o edif\u00edcio n\u00e3o tem janelas) d\u00e1 logo a seguir lugar \u00e0 claridade do interior.<br \/>\nVisto de longe, o edif\u00edcio mais parece um disco. N\u00e3o se v\u00ea logo que se trata de uma Igreja. N\u00e3o existe um campan\u00e1rio. \u00c9 aqui que o Crucifixo, atrav\u00e9s da sua dimens\u00e3o e materialidade, se torna parceiro da forma arquitect\u00f3nica, marcando-se pela utilidade do edif\u00edcio: \u00e0 impon\u00eancia maci\u00e7a da pedra que emana verticalmente do edif\u00edcio, op\u00f5e-se, como num di\u00e1logo, a envergadura em filigrana do crucifixo de a\u00e7o. As duas obras necessitam-se mutuamente e apesar das suas diferen\u00e7as formais, criam uma unidade est\u00e9tica.<\/p>\n<p><strong>Ent\u00e3o com este Crucifixo j\u00e1 fica a constar tamb\u00e9m numa longa \u201clista\u201d da Hist\u00f3ria de Arte, tal como na hist\u00f3ria da espiritualidade e da religiosidade. O que \u00e9 que mexeu mais consigo, quando debru\u00e7ado sobre o estirador, procurou ter ideias que o inspirassem a tra\u00e7ar as primeiras ideias relacionadas com o crucifixo? O que faz um artista perante as in\u00fameras hip\u00f3teses que se podem imaginar, desde as cruzes da primeira cristandade nas catacumbas, at\u00e9 \u00e0 era Joseph Beuys?<br \/>\n<\/strong>Pois, n\u00e3o foi f\u00e1cil chegar a esta forma. Sabemos que existe o tradicional escultor de igreja que recorre \u00e0s conhecidas formas habituais, quando pretende criar um crucifixo. As exig\u00eancias tradicionais de concep\u00e7\u00e3o de imagens crist\u00e3s, normalmente, n\u00e3o d\u00e3o muita liberdade ao artista. Nas imagens de crucifica\u00e7\u00f5es de todas as \u00e9pocas existe um reflexo do estado da sociedade, do papel da Igreja Cat\u00f3lica e da F\u00e9 atrav\u00e9s dos v\u00e1rios s\u00e9culos. Eu analisei exaustivamente a arte crist\u00e3 e em especial a da Idade M\u00e9dia. Quando se iniciaram as representa\u00e7\u00f5es de crucifica\u00e7\u00f5es no s\u00e9c. VI, e \u00e0 imagem dos Deuses romanos, Cristo era apresentado sem barba. No pr\u00e9-romantismo imp\u00f5e-se um tipo mais indolor. Depois, no tempo das grandes epidemias de peste no s\u00e9culo XIV, as transfiguradas do outro mundo deram lugar a entregas drasticamente realistas, com as quais as pessoas se podiam identificar no seu sofrimento. No Renascimento o interesse passou para a representa\u00e7\u00e3o da nudez do corpo humano, como s\u00edmbolo do Ideal e da procura do Ser humano belo e com alma. Depois das representa\u00e7\u00f5es hiperrealistas, ext\u00e1ticas e exageradas das cruzes do Maneirismo, veio o Barroco apresentar ao observador, o seu cen\u00e1rio teatral da paix\u00e3o. Em 18. e No s\u00e9culo XIX, os artistas produziram pouco do que era novo em termos deste tema. A religi\u00e3o tornou-se um assunto privado. Em No s\u00e9culo XX, a igreja finalmente perdeu o seu significado como patrono central das artes.<br \/>\nAo olhar para a hist\u00f3ria da arte, perguntei-me como \u00e9 que um crucifixo pode e deve parecer hoje em dia. Um crucifixo n\u00e3o pode ser apenas um s\u00edmbolo do mundo ocidental, tendo em conta que a maioria dos crist\u00e3os n\u00e3o vive de todo na Europa, mas em \u00c1frica e na Am\u00e9rica do Sul. Por isso, era natural olhar para as representa\u00e7\u00f5es crist\u00e3s dos povos missionados de \u00c1frica e da Am\u00e9rica do Sul. A expressividade na simplicidade, conforme aparece na arte africana, s\u00f3 me veio confirmar que deveria desistir de me preocupar com os detalhes realistas da representa\u00e7\u00e3o do corpo.<br \/>\nEstas liberdades art\u00edsticas encorajaram-me a olhar para al\u00e9m dos dogmas formais comuns da arte crist\u00e3. Creio que num lugar como F\u00e1tima, que \u00e9 significativo para os crist\u00e3os em todo o mundo, \u00e9 importante estabelecer um sinal global e criar uma esp\u00e9cie de concentra\u00e7\u00e3o como resultado de reflex\u00f5es hist\u00f3ricas e estudos art\u00edsticos-hist\u00f3ricos, que reflectem e resumem as diferentes experi\u00eancias positivas e negativas do indiv\u00edduo. S\u00e3o de evocar possibilidades de representa\u00e7\u00e3o muito pessoais, diferentes e ambivalentes, vejo isto como a minha responsabilidade como artista neste lugar. Deve ser uma cruz do nosso tempo para o nosso tempo. N\u00e3o se destina a decorar e comentar, mas sim a moldar um lugar onde o ver e o pensar s\u00e3o desafiados.<\/p>\n<p><strong>Se bem o entendi, encontrou uma linguagem visual global com e no seu crucifixo. Mas ser\u00e1 isso suficiente para actualizar o crucifixo na sua mensagem?<br \/>\n<\/strong>Assim, penso que o que est\u00e1 a acontecer hoje em F\u00e1tima em rela\u00e7\u00e3o ao meu crucifixo e \u00e0 arquitectura como um todo \u00e9, antes de mais, a interac\u00e7\u00e3o das artes actuais com a igreja, de uma forma que n\u00e3o tenho notado em parte alguma no nosso tempo. A colabora\u00e7\u00e3o directa entre cliente, arquitecto e artista, que \u00e9 um pr\u00e9-requisito para a realiza\u00e7\u00e3o de uma obra de arte t\u00e3o total, era quase ideal. A linguagem da arte e da arquitectura criada em F\u00e1tima \u00e9 intemporal, apesar da sua actualidade, raz\u00e3o pela qual estou certo de que tamb\u00e9m pode ser apreciada e compreendida por pessoas de gera\u00e7\u00f5es posteriores. A restri\u00e7\u00e3o consciente da arte e da arquitectura ao existencial e essencial, mesmo asceta, \u00e9, a meu ver, algo que pode contrariar um mundo de sobrecarga sensorial.<\/p>\n<p><strong>Mas o que \u00e9 contempor\u00e2neo, o que \u00e9 hoje o seu crucifixo?<br \/>\n<\/strong>O observador da cruz nota rapidamente o material, o a\u00e7o, o que \u00e9 um sinal do nosso tempo. O a\u00e7o n\u00e3o \u00e9 uma inven\u00e7\u00e3o do nosso tempo; pense nos grandes edif\u00edcios-esqueleto de a\u00e7o do s\u00e9culo XIX. Dar a este material uma declara\u00e7\u00e3o humana n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Mas tento dar ao material uma linguagem que o faz esquecer o a\u00e7o. Por raz\u00f5es estruturais, uma cruz t\u00e3o alta s\u00f3 pode ser constru\u00edda de a\u00e7o. Tivemos de fazer c\u00e1lculos est\u00e1ticos que garantissem estabilidade mesmo no caso de ventos fortes e terramotos. A cruz tem uma altura gigantesca e \u00e9, tanto quanto sei, o crucifixo mais alto do mundo. A oxida\u00e7\u00e3o d\u00e1 ao a\u00e7o um car\u00e1cter de superf\u00edcie muito natural. O a\u00e7o \u00e9 autorizado a envelhecer como um ser humano envelhece. Primeiro tive de convencer os clientes da igreja, que preferiam uma superf\u00edcie revestida a preto e branco. A ferrugem \u00e9 algo vivo. Em climas secos, a escultura tem uma cor castanho-avermelhada brilhante; em condi\u00e7\u00f5es de chuva e humidade, \u00e9 quase preta. Al\u00e9m disso, a escultura \u00e9 feita de a\u00e7o Corten de parede grossa, cuja camada de ferrugem protege o material. A passagem da ferrugem \u00e9 absolutamente imposs\u00edvel.<\/p>\n<p><strong>O a\u00e7o \u00e9 um material que est\u00e1 subjacente a todo o seu trabalho art\u00edstico. Ele \u00e9 a constante do seu trabalho. Uma constante menor \u00e9 a forma.<\/strong><br \/>\n<strong>Como chegou \u00e0 forma do corpus de Cristo na sua cruz?<br \/>\n<\/strong>Quando se olha para crucifixos hist\u00f3ricos, pode-se sempre ver que a cruz e o corpo s\u00e3o um s\u00f3. Tinha inicialmente procurado solu\u00e7\u00f5es formais que prescindissem da cruz e mostrado apenas o corpo, a fim de permitir que o corpo sofredor se tornasse um s\u00f3 com a cruz. Isto levanta uma quest\u00e3o de conte\u00fado: Se o corpo em si \u00e9 a cruz, \u00e9 sobre o estado mental e f\u00edsico que pode tornar-se a pr\u00f3pria cruz. Uma tal forma teria provavelmente perturbado demasiado a vis\u00e3o do mundo religioso dos peregrinos. Trabalhar para a igreja \u00e9 diferente de trabalhar para clientes seculares. O artista deve afirmar a sua liberdade contra as estruturas iconogr\u00e1ficas e lit\u00fargicas. Mas n\u00e3o tive sucesso neste caso. Assim, foi criado um crucifixo no qual a cruz est\u00e1 presente, mas n\u00e3o s\u00f3 serve como um mero suporte para o corpo, mas devido \u00e0 constante escolha do material torna-se um com ele, funde-se com ele.<\/p>\n<p><strong>Mas como reagem os seus colegas a que fa\u00e7a algo como isto? Se trabalha para a igreja, \u00e9 rapidamente apanhado como um artista aplicado.<br \/>\n<\/strong>Tem toda a raz\u00e3o e isso tamb\u00e9m me aconteceu a mim. Mostrei os meus desenhos a alguns colegas e amigos historiadores de arte e tive reac\u00e7\u00f5es muito diferentes, desde o entusiasmo fren\u00e9tico at\u00e9 \u00e0 rejei\u00e7\u00e3o abismal. Para mim, o factor decisivo foi o confronto com o tema, que acompanhou a hist\u00f3ria da arte durante s\u00e9culos, a fim de estabelecer um sinal do nosso tempo. Ao faz\u00ea-lo, foi importante para mim permanecer fiel \u00e0 minha linguagem art\u00edstica, que desenvolvi ao longo das \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p><strong>Mas tamb\u00e9m podiam ter recusado. Porque \u00e9 que, ao contr\u00e1rio talvez de muitos dos seus colegas, aceitou a miss\u00e3o?<br \/>\n<\/strong>Uma tarefa importante do artista \u00e9 fazer perguntas que s\u00e3o discutidas. Uma boa obra de arte permite respostas m\u00faltiplas e, desde que estimule o pensamento, mant\u00e9m o seu impacto. Cada pessoa tem a sua pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o especial com um crucifixo. Para alguns, \u00e9 um objecto de culto que encontra o seu lugar em igrejas e casas particulares, \u00e9 usado em prociss\u00f5es atrav\u00e9s de campos, prados e cidades, ou como um sinal ou talism\u00e3 ao pesco\u00e7o. Outros v\u00eaem-na como uma amea\u00e7a. \u00c9 por isso que \u00e9 uma experi\u00eancia muito especial desenhar um crucifixo t\u00e3o grande para esta pra\u00e7a, que \u00e9 um lugar central do cristianismo.<\/p>\n<p><strong>N\u00e3o quero ser indiscreto, mas permita-me que lhe pergunte de que fonte pessoal ou de que sinal pessoal de vida para al\u00e9m das considera\u00e7\u00f5es art\u00edsticas \u00e9 que esta &#8220;experi\u00eancia muito pr\u00f3pria&#8221; de que acabou de falar alimenta-o?<br \/>\n<\/strong>\u00c9 esta forma de crucifixo simbolicamente carregada que se envolve e desafia de uma forma muito diferente quando se trabalha do que quando se cria uma escultura livre, pois milh\u00f5es de pessoas projectam os seus desejos, esperan\u00e7as e medos na cruz. Durante a fase de planeamento, a quest\u00e3o continuava a passar-me pela cabe\u00e7a se o crente comum poderia sequer ser esperado que aceitasse a forma que eu estava a propor. Tamb\u00e9m me perguntei porque \u00e9 que eu, que nunca tinha trabalhado para a Igreja, deveria fazer a grande cruz principal para F\u00e1tima. A data do meu anivers\u00e1rio, que coincide com a comemora\u00e7\u00e3o do nascimento de Cristo, fez-me pensar e inspirou-me a procurar outras poss\u00edveis coincid\u00eancias num\u00e9ricas. Ao faz\u00ea-lo, deparei-me com o facto de a soma dos d\u00edgitos do meu anivers\u00e1rio (24.12.1953) ser id\u00eantica \u00e0 do primeiro dia das apari\u00e7\u00f5es (13.5.1917). \u00c9 claro que isto pode ser pura coincid\u00eancia.<\/p>\n<p><strong>Os espectadores est\u00e3o sempre curiosos sobre o que o artista realmente significa, qual \u00e9 a sua atitude em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua obra de arte.<br \/>\n<\/strong> lbwpml_linebreakQueromanter a gama de associa\u00e7\u00f5es sobre o meu crucifixo t\u00e3o aberta quanto poss\u00edvel, tendo em conta o assunto em quest\u00e3o. Mas lidar com o crucifixo significa tamb\u00e9m lidar com as pr\u00f3prias ra\u00edzes culturais, e eu fa\u00e7o-o com os meios \u00e0 minha disposi\u00e7\u00e3o. O meu trabalho \u00e9 de natureza antipodal. Nele, a rigidez construtiva e a vivacidade, a leveza visual e o peso f\u00edsico s\u00e3o justapostos. O meu trabalho representa a busca permanente da supera\u00e7\u00e3o destes aparentes opostos. N\u00e3o se consegue ver o enorme peso no meu trabalho. Isto tamb\u00e9m se aplica ao meu crucifixo F\u00e1tima.<\/p>\n<p><strong>O que o liga \u00e0 cruz e como \u00e9 que ela se relaciona com a sua vida? Que ideia desenvolveu neste crucifixo?<br \/>\n<\/strong>Por um lado, deriva da hist\u00f3ria da arte, por outro lado, do que conhe\u00e7o de toda a minha experi\u00eancia desde a inf\u00e2ncia. Fui baptizada cat\u00f3lica romana e tenho tido experi\u00eancias muito diferentes com a igreja. A minha religiosidade de inf\u00e2ncia foi moldada por um padre beneditino que se preocupava muito com a nossa salva\u00e7\u00e3o e era uma personalidade muito paternal e carism\u00e1tica. Nos anos que se seguiram, a d\u00favida e o cepticismo moldaram cada vez mais a minha rela\u00e7\u00e3o com a Igreja Cat\u00f3lica devido ao seu papel amb\u00edguo, especialmente durante as guerras coloniais e o fascismo do s\u00e9culo XX. Al\u00e9m disso, o estudo de outras religi\u00f5es, especialmente do budismo, abriu a minha vis\u00e3o do mundo. O renovado debate actual sobre o crucifixo significa para mim pessoalmente uma esp\u00e9cie de balan\u00e7o da minha atitude em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica, que desde h\u00e1 alguns anos tem vindo a interferir cada vez mais nos discursos sociais, culturais e pol\u00edticos mundiais em benef\u00edcio do povo, de uma forma adequada ao nosso tempo.<\/p>\n<p><strong>Disse que o seu trabalho art\u00edstico \u00e9 a busca permanente da supera\u00e7\u00e3o de opostos aparentes. O que quer dizer com isso?<br \/>\n<\/strong>J\u00e1 assinalei que uma das coisas com que me preocupo no meu crucifixo \u00e9 superar o peso f\u00edsico atrav\u00e9s da aparente leveza. A rigidez constru\u00edda de forma f\u00e9rrea \u00e9 para dar lugar \u00e0 impress\u00e3o de movimento vivo. Atrav\u00e9s do a\u00e7o bruto e frio, s\u00e3o veiculados conte\u00fados que se encontram por detr\u00e1s daquilo que \u00e9 percebido pelo olho. Desta forma, o meu crucifixo pode ser um memorial para qualquer supera\u00e7\u00e3o de opostos no pensamento e na ac\u00e7\u00e3o. Os patronos eclesi\u00e1sticos de F\u00e1tima fizeram-no certamente \u00e0 sua maneira: ousaram contrabalan\u00e7ar o culto de Maria com a constru\u00e7\u00e3o da monumental Igreja da Sant\u00edssima Trindade e do seu crucifixo. Em Portugal, as est\u00e1tuas da Virgem Maria t\u00eam claramente prioridade sobre o crucifixo em espa\u00e7os privados e p\u00fablicos. E com a est\u00e9tica das instala\u00e7\u00f5es de peregrina\u00e7\u00e3o recentemente concebidas, novos caminhos para o futuro foram apontados com confian\u00e7a. F\u00e1tima pode ser entendida como um convite a seguir este caminho.<\/p>\n<p><strong>Quanto tempo levou o desenvolvimento do projecto, desde o primeiro contacto do arquitecto at\u00e9 \u00e0 instala\u00e7\u00e3o do crucifixo?<br \/>\n<\/strong>Recebi o pedido de Alexandros Tombazis no final de 2005. Em 2006, as primeiras reuni\u00f5es tiveram lugar em F\u00e1tima, seguidas dos preparativos para o projecto. Em 2007, o crucifixo foi ent\u00e3o produzido numa grande empresa de constru\u00e7\u00e3o em a\u00e7o perto do Porto. A constru\u00e7\u00e3o teve ent\u00e3o lugar em Agosto de 2007. A cruz foi trazida para F\u00e1tima em quatro partes, onde foi montada e erguida em poucos dias. A apar\u00eancia era dif\u00edcil de avaliar de antem\u00e3o. A sugest\u00e3o do meu engenheiro de estruturas de elevar a cruz de 28 para 34 metros beneficiou a presen\u00e7a do crucifixo e o seu peso contra o edif\u00edcio da igreja. Juntamente com a Capela da Apari\u00e7\u00e3o, forma um eixo diagonal no complexo quadrangular, de resto sim\u00e9trico, com os seus edif\u00edcios de igreja. O efeito de longa dist\u00e2ncia do crucifixo surpreendeu todos os que trabalharam na instala\u00e7\u00e3o. \u00c0 medida que se aproxima do centro de peregrina\u00e7\u00e3o atrav\u00e9s da auto-estrada, j\u00e1 se pode ver por cima dos telhados da cidade. Agora que o crucifixo est\u00e1 pronto, sinto que ele se &#8220;desprendeu&#8221; de mim depois de todo o tempo que pass\u00e1mos a plane\u00e1-lo e a constru\u00ed-lo. O Crucifixo de F\u00e1tima tornou-se uma forma p\u00fablica que j\u00e1 n\u00e3o me pertence apenas a mim, mas que tem sido entregue a pessoas que cada vez mais se apropriam espiritualmente dele. S\u00f3 o futuro mostrar\u00e1 se pode cumprir a sua tarefa da maneira que eu quero e conquistar um lugar firme no cora\u00e7\u00e3o das pessoas.[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row][vc_row row_height_percent=&#8221;0&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; gutter_size=&#8221;3&#8243; column_width_percent=&#8221;100&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;143766&#8243;][vc_column width=&#8221;1\/1&#8243;][vc_gallery el_id=&#8221;gallery-131572&#8243; medias=&#8221;139,140,141,142,143,144,147,146&#8243; gutter_size=&#8221;1&#8243; screen_lg=&#8221;1000&#8243; screen_md=&#8221;600&#8243; screen_sm=&#8221;480&#8243; single_width=&#8221;3&#8243; single_overlay_opacity=&#8221;50&#8243; single_padding=&#8221;2&#8243; single_border=&#8221;yes&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;180182&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/1&#8243;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row row_height_percent=&#8221;0&#8243; override_padding=&#8221;yes&#8221; h_padding=&#8221;2&#8243; top_padding=&#8221;0&#8243; bottom_padding=&#8221;0&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; gutter_size=&#8221;3&#8243; column_width_percent=&#8221;100&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;627808&#8243;][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; position_vertical=&#8221;middle&#8221; align_horizontal=&#8221;align_center&#8221; gutter_size=&#8221;3&#8243; override_padding=&#8221;yes&#8221; column_padding=&#8221;2&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; width=&#8221;1\/1&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;491184&#8243;][vc_button size=&#8221;link&#8221; btn_link_size=&#8221;h3&#8243; btn_link_underline=&#8221;btn-underline&#8221; link=&#8221;url:https%3A%2F%2Ffatima.robertschad.eu%2Fpt-pt%2Ftextos%2F|title:O%20dif%C3%ADcil%20%C3%A9%20dar%20express%C3%A3o%20%C3%A0%20simplicidade.|&#8221; uncode_shortcode_id=&#8221;137886&#8243;]Textos[\/vc_button][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>[vc_row unlock_row_content=&#8221;yes&#8221; row_height_percent=&#8221;100&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; equal_height=&#8221;yes&#8221; gutter_size=&#8221;3&#8243; column_width_percent=&#8221;100&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; uncode_shortcode_id=&#8221;151996&#8243;][vc_column column_width_percent=&#8221;100&#8243; gutter_size=&#8221;3&#8243; back_image=&#8221;89&#8243; overlay_alpha=&#8221;50&#8243; shift_x=&#8221;0&#8243; shift_y=&#8221;0&#8243; shift_y_down=&#8221;0&#8243; z_index=&#8221;0&#8243; medium_width=&#8221;0&#8243; mobile_width=&#8221;0&#8243; [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"parent":848,"menu_order":0,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","template":"","meta":{"footnotes":""},"class_list":["post-882","page","type-page","status-publish","hentry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/fatima.robertschad.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/882","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/fatima.robertschad.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/pages"}],"about":[{"href":"https:\/\/fatima.robertschad.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/types\/page"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fatima.robertschad.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fatima.robertschad.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=882"}],"version-history":[{"count":6,"href":"https:\/\/fatima.robertschad.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/882\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":1032,"href":"https:\/\/fatima.robertschad.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/882\/revisions\/1032"}],"up":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/fatima.robertschad.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/pages\/848"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/fatima.robertschad.eu\/pt-pt\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=882"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}